sábado, 26 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (II) - 26/03/2011

Texto áureo: Salmo 90:12
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios."

Leitura de hoje: Salmos 129, 130, 137, 139, 140


Muitas vezes me oprimiram desde a minha juventude; que Israel o repita:
muitas vezes me oprimiram desde a minha juventude, mas jamais conseguiram vencer-me.
Passaram o arado em minhas costas e fizeram longos sulcos.
O Senhor é justo! Ele libertou-me das algemas dos ímpios.
Retrocedam envergonhados todos os que odeiam Sião.
Sejam como o capim do terraço, que seca antes de crescer,
que não enche as mãos do ceifeiro nem os braços daquele que faz os fardos.
E que ninguém que passa diga: "Seja sobre vocês a bênção do Senhor; nós os abençoamos em nome do Senhor!"

Das profundezas clamo a ti, Senhor;
Ouve, Senhor, a minha voz! Estejam atentos os teus ouvidos às minhas súplicas!
Se tu, Soberano Senhor, registrasses os pecados, quem escaparia?
Mas contigo está o perdão para que sejas temido.
Espero no Senhor com todo o meu ser, e na sua palavra ponho a minha esperança.
Espero pelo Senhor mais do que as sentinelas pela manhã; sim, mais do que as sentinelas esperam pela manhã!
Ponha a sua esperança no Senhor, ó Israel, pois no Senhor há amor leal e plena redenção.
Ele próprio redimirá Israel de todas as suas culpas.

Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião.
Ali, nos salgueiros penduramos as nossas harpas;
ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções alegres, dizendo: "Cantem para nós uma das canções de Sião!"
Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estrangeira?
Que a minha mão direita definhe, ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti!
Que a língua se me grude ao céu da boca, se eu não me lembrar de ti, e não considerar Jerusalém a minha maior alegria!
Lembra-te, Senhor, dos edomitas e do que fizeram quando Jerusalém foi destruída, pois gritavam: "Arrasem-na! Arrasem-na até aos alicerces!"
Ó cidade de Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele que lhe retribuir o mal que você nos fez!
Feliz aquele que pegar os seus filhos e os despedaçar contra a rocha!

Senhor, tu me sondas e me conheces.
Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos.
Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos.
Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.
Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim.
Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir.
Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?
Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás.
Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar,
mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá.
Mesmo que eu dissesse que as trevas me encobrirão, e que a luz se tornará noite ao meu redor,
verei que nem as trevas são escuras para ti. A noite brilhará como o dia, pois para ti as trevas são luz.
Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe.
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.
Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Como são preciosos para mim os teus pensamentos, ó Deus! Como é grande a soma deles!
Se eu os contasse seriam mais do que os grãos de areia. Se terminasse de contá-los, eu ainda estaria contigo.
Quem dera matasses os ímpios, ó Deus! Afastem-se de mim os assassinos!
Porque falam de ti com maldade; em vão rebelam-se contra ti.
Acaso não odeio os que te odeiam, Senhor? E não detesto os que se revoltam contra ti?
Tenho por eles ódio implacável! Considero-os inimigos meus!
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações.
Vê se em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno.

Livra-me, Senhor, dos maus; protege-me dos violentos,
que no coração tramam planos perversos e estão sempre provocando guerra.
Afiam a língua como a da serpente; veneno de víbora está em seus lábios.
Protege-me, Senhor, das mãos dos ímpios; protege-me dos violentos, que pretendem fazer-me tropeçar.
Homens arrogantes prepararam armadilhas contra mim, perversos estenderam as suas redes; no meu caminho armaram ciladas contra mim.
Eu declaro ao Senhor: "Tu és o meu Deus". Ouve, Senhor, a minha súplica!
Ó Soberano Senhor, meu salvador poderoso, tu me proteges a cabeça no dia da batalha;
não atendas os desejos dos ímpios, Senhor! Não permitas que os planos deles tenham sucesso, para que não se orgulhem.
Recaia sobre a cabeça dos que me cercam a maldade que os seus lábios proferiram.
Caiam brasas sobre eles, e sejam lançados ao fogo, em covas das quais jamais possam sair.
Que os difamadores não se estabeleçam na terra, e a desgraça persiga os violentos até à morte.
Sei que o Senhor defenderá a causa do necessitado e fará justiça aos pobres.
Com certeza os justos darão graças ao teu nome, e os homens íntegros viverão na tua presença.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (II) - 25/03/2011

Texto áureo: Salmo 90:12
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios."

Leitura de hoje: Salmos 109, 120, 122, 123 e 125

Ó Deus, a quem louvo, não fiques indiferente,
pois homens ímpios e falsos dizem calúnias contra mim, e falam mentiras a meu respeito.
Eles me cercaram com palavras carregadas de ódio; atacaram-me sem motivo.
Em troca da minha amizade eles me acusam, mas eu permaneço em oração.
Retribuem-me o bem com o mal, e a minha amizade com ódio.
Designe-se um ímpio como seu oponente; à sua direita esteja um acusador.
Seja declarado culpado no julgamento, e que até a sua oração seja considerada pecado.
Seja a sua vida curta, e outro ocupe o seu lugar.
Fiquem órfãos os seus filhos e a sua esposa, viúva.
Vivam os seus filhos vagando como mendigos, e saiam rebuscando o pão longe de suas casas em ruínas.
Que um credor se aposse de todos os seus bens, e estranhos saqueiem o fruto do seu trabalho.
Que ninguém o trate com bondade nem tenha misericórdia dos seus filhos órfãos.
Sejam exterminados os seus descendentes e desapareçam os seus nomes na geração seguinte.
Que o Senhor se lembre da iniqüidade dos seus antepassados, e não se apague o pecado de sua mãe.
Estejam os seus pecados sempre perante o Senhor, e na terra ninguém jamais se lembre da sua família.
Pois ele jamais pensou em praticar um ato de bondade, mas perseguiu até à morte o pobre, o necessitado e o de coração partido.
Ele gostava de amaldiçoar: venha sobre ele a maldição! Não tinha prazer em abençoar: afaste-se dele a bênção!
Ele vestia a maldição como uma roupa: entre ela em seu corpo como água e em seus ossos como óleo.
Envolva-o como um manto e aperte-o sempre como um cinto.
Assim retribua o Senhor aos meus acusadores, aos que me caluniam.
Mas tu, Soberano Senhor, intervém em meu favor, por causa do teu nome. Livra-me, pois é sublime o teu amor leal!
Sou pobre e necessitado e, no íntimo, o meu coração está abatido.
Vou definhando como a sombra vespertina; para longe sou lançado, como um gafanhoto.
De tanto jejuar os meus joelhos fraquejam e o meu corpo definha de magreza.
Sou motivo de zombaria para os meus acusadores; logo que me vêem, meneiam a cabeça.
Socorro, Senhor, meu Deus! Salva-me pelo teu amor leal!
Que eles reconheçam que foi a tua mão, que foste tu, Senhor, que o fizeste.
Eles podem amaldiçoar, tu, porém, me abençoas. Quando atacarem, serão humilhados, mas o teu servo se alegrará.
Sejam os meus acusadores vestidos de desonra; que a vergonha os cubra como um manto.
Em alta voz, darei muitas graças ao Senhor; no meio da assembléia eu o louvarei,
pois ele se põe ao lado do pobre para salvá-lo daqueles que o condenam.

Eu clamo pelo Senhor na minha angústia, e ele me responde.
Senhor, livra-me dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira!
O que ele lhe dará? Como lhe retribuirá, ó língua enganadora?
Ele a castigará com flechas afiadas de guerreiro, com brasas incandescentes de sândalo.
Ai de mim que vivo como estrangeiro em Meseque, que habito entre as tendas de Quedar!
Tenho vivido tempo demais entre os que odeiam a paz.
Sou um homem de paz; mas, ainda que eu fale de paz, eles só falam de guerra.

Alegrei-me com os que me disseram: "Vamos à casa do Senhor!"
Nossos pés já se encontram dentro de suas portas, ó Jerusalém!
Jerusalém está construída como cidade firmemente estabelecida.
Para lá sobem as tribos do Senhor, para dar graças ao Senhor, conforme o mandamento dado a Israel.
Lá estão os tribunais de justiça, os tribunais da casa real de Davi.
Orem pela paz de Jerusalém: "Vivam em segurança aqueles que te amam!
Haja paz dentro dos teus muros e segurança nas tuas cidadelas!"
Em favor de meus irmãos e amigos, direi: "Paz seja com você!"
Em favor da casa do Senhor, nosso Deus, buscarei o seu bem.

Para ti levanto os meus olhos, a ti, que ocupas o teu trono nos céus.
Assim como os olhos dos servos estão atentos à mão de seu senhor, e como os olhos das servas estão atentos à mão de sua senhora, também os nossos olhos estão atentos ao Senhor, ao nosso Deus, esperando que ele tenha misericórdia de nós.
Misericórdia, Senhor! Tem misericórdia de nós! Já estamos cansados de tanto desprezo.
Estamos cansados de tanta zombaria dos orgulhosos e do desprezo dos arrogantes.

Os que confiam no Senhor são como o monte Sião, que não se pode abalar, mas permanece para sempre.
Como os montes cercam Jerusalém, assim o Senhor protege o seu povo, desde agora e para sempre.
O cetro dos ímpios não prevalecerá sobre a terra dada aos justos, se assim fosse, até os justos praticariam a injustiça.  
Senhor, trata com bondade aos que fazem o bem, aos que têm coração íntegro.
Mas aos que se desviam por caminhos tortuosos, o Senhor dará o castigo dos malfeitores. Haja paz em Israel!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (II) - 24/03/2011

Texto áureo: Salmo 90:12
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios."

Leitura de hoje: Salmos 86, 88, 90, 94 e 102


Inclina os teus ouvidos, ó Senhor, e responde-me, pois sou pobre e necessitado.
Guarda a minha vida, pois sou fiel a ti. Tu és o meu Deus; salva o teu servo que em ti confia!
Misericórdia, Senhor, pois clamo a ti sem cessar.
Alegra o coração do teu servo, pois a ti, Senhor, elevo a minha alma.
Tu és bondoso e perdoador, Senhor, rico em graça para com todos os que te invocam.
Escuta a minha oração, Senhor; atenta para a minha súplica!
No dia da minha angústia clamarei a ti, pois tu me responderás.
Nenhum dos deuses é comparável a ti, Senhor, nenhum deles pode fazer o que tu fazes.
Todas as nações que tu formaste virão e te adorarão, Senhor, glorificarão o teu nome.
Pois tu és grande e realizas feitos maravilhosos; só tu és Deus!
Ensina-me o teu caminho, Senhor, para que eu ande na tua verdade; dá-me um coração inteiramente fiel, para que eu tema o teu nome.
De todo o meu coração te louvarei, Senhor, meu Deus; glorificarei o teu nome para sempre.
Pois grande é o teu amor para comigo; tu me livraste das profundezas do Sheol.
Os arrogantes estão me atacando, ó Deus; um bando de homens cruéis, gente que não faz caso de ti procura tirar-me a vida.
Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e misericordioso, muito paciente, rico em amor e em fidelidade.
Volta-te para mim! Tem misericórdia de mim! Concede a tua força a teu servo e salva o filho da tua serva.
Dá-me um sinal da tua bondade, para que os meus inimigos vejam e sejam humilhados, pois tu, Senhor, me ajudaste e me consolaste.

Ó Senhor, Deus que me salva, a ti clamo dia e noite.
Que a minha oração chegue diante de ti; inclina os teus ouvidos ao meu clamor.
Tenho sofrido tanto que a minha vida está à beira da sepultura!
Sou contado entre os que descem à cova; sou como um homem que já não tem forças.
Fui colocado junto aos mortos, sou como os cadáveres que jazem no túmulo, dos quais já não te lembras, pois foram tirados de tua mão.
Puseste-me na cova mais profunda, na escuridão das profundezas.
Tua ira pesa sobre mim; com todas as tuas ondas me afligiste.
Afastaste de mim os meus melhores amigos e me tornaste repugnante para eles. Estou como um preso que não pode fugir;
minhas vistas já estão fracas de tristeza. A ti, Senhor, clamo cada dia; a ti ergo as minhas mãos.
Acaso mostras as tuas maravilhas aos mortos? Acaso os mortos se levantam e te louvam?
Será que o teu amor é anunciado no túmulo, e a tua fidelidade, no Abismo da Morte?
Acaso são conhecidas as tuas maravilhas na região das trevas, e os teus feitos de justiça, na terra do esquecimento?
Mas eu, Senhor, a ti clamo por socorro; já de manhã a minha oração chega à tua presença.
Por que, Senhor, me rejeitas e escondes de mim o teu rosto?
Desde moço tenho sofrido e ando perto da morte; os teus terrores levaram-me ao desespero.
Sobre mim se abateu a tua ira; os pavores que me causas me destruíram.
Cercam-me o dia todo como uma inundação; envolvem-me por completo.
Tiraste de mim os meus amigos e os meus companheiros; as trevas são a minha única companhia.

Senhor, tu és o nosso refúgio, sempre, de geração em geração.
Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus.
Fazes os homens voltarem ao pó, dizendo: "Retornem ao pó, seres humanos!"
De fato, mil anos para ti são como o dia de ontem que passou, como as horas da noite.
Como uma correnteza, tu arrastas os homens; são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer;
germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca.
Somos consumidos pela tua ira e aterrorizados pelo teu furor.
Conheces as nossas iniqüidades; não escapam os nossos pecados secretos à luz da tua presença.
Todos os nossos dias passam debaixo do teu furor; vão-se como um murmúrio.
Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou a oitenta para os que têm mais vigor; entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa, e nós voamos!
Quem conhece o poder da tua ira? Pois o teu furor é tão grande como o temor que te é devido.
Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria.
Volta-te, Senhor! Até quando será assim? Tem compaixão dos teus servos!
Satisfaze-nos pela manhã com o teu amor leal, e todos os nossos dias cantaremos felizes.
Dá-nos alegria pelo tempo que nos afligiste, pelos anos em que tanto sofremos.
Sejam manifestos os teus feitos aos teus servos, e aos filhos deles o teu esplendor!
Esteja sobre nós a bondade do nosso Deus Soberano. Consolida, para nós, a obra de nossas mãos; consolida a obra de nossas mãos!

Ó Senhor, Deus vingador; Deus vingador! Intervém!
Levanta-te, Juiz da terra; retribui aos orgulhosos o que merecem.
Até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios exultarão?
Eles despejam palavras arrogantes, todos esses malfeitores enchem-se de vanglória.
Massacram o teu povo, Senhor, e oprimem a tua herança;
matam as viúvas e os estrangeiros, assassinam os órfãos,
e ainda dizem: "O Senhor não nos vê; o Deus de Jacó nada percebe".
Insensatos, procurem entender! E vocês, tolos, quando se tornarão sábios?
Será que quem fez o ouvido não ouve? Será que quem formou o olho não vê?
Aquele que disciplina as nações os deixará sem castigo? Não tem sabedoria aquele que dá ao homem o conhecimento?
O Senhor conhece os pensamentos do homem, e sabe como são fúteis.
Como é feliz o homem a quem disciplinas, Senhor, aquele a quem ensinas a tua lei;
tranqüilo, enfrentará os dias maus, enquanto que, para os ímpios, uma cova se abrirá.
O Senhor não desamparará o seu povo; jamais abandonará a sua herança.
Voltará a haver justiça nos julgamentos, e todos os retos de coração a seguirão.
Quem se levantará a meu favor contra os ímpios? Quem ficará a meu lado contra os malfeitores?
Não fosse a ajuda do Senhor, eu já estaria habitando no silêncio.
Quando eu disse: "Os meus pés escorregaram", o teu amor leal, Senhor, me amparou!
Quando a ansiedade já me dominava no íntimo, o teu consolo trouxe alívio à minha alma.
Poderá um trono corrupto estar em aliança contigo?, um trono que faz injustiças em nome da lei?
Eles planejam contra a vida dos justos e condenam os inocentes à morte.
Mas o Senhor é a minha torre segura; o meu Deus é a rocha em que encontro refúgio.
Fará cair sobre eles os seus crimes, e os destruirá por causa dos seus pecados; o Senhor, o nosso Deus, os destruirá!

Ouve a minha oração, Senhor! Chegue a ti o meu grito de socorro!
Não escondas de mim o teu rosto, quando estou atribulado. Inclina para mim os teus ouvidos; quando eu clamar, responde-me depressa!
Esvaem-se os meus dias como fumaça; meus ossos queimam como brasas vivas.
Como a relva ressequida está o meu coração; esqueço até de comer!
De tanto gemer estou reduzido a pele e osso.
Sou como a coruja do deserto, como uma coruja entre as ruínas.
Não consigo dormir; tornei-me como um pássaro solitário no telhado.
Os meus inimigos zombam de mim o tempo todo; os que me insultam usam o meu nome para lançar maldições.
Cinzas são a minha comida, e com lágrimas misturo o que bebo,
por causa da tua indignação e da tua ira, pois me rejeitaste e me expulsaste para longe de ti.
Meus dias são como sombras crescentes; sou como a relva que vai murchando.
Tu, porém, Senhor, no trono reinarás para sempre; o teu nome será lembrado de geração em geração.
Tu te levantarás e terás misericórdia de Sião, pois é hora de lhe mostrares compaixão; o tempo certo é chegado.
Pois as suas pedras são amadas pelos teus servos, as suas ruínas os enchem de compaixão.
Então as nações temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra a sua glória.
Porque o Senhor reconstruirá Sião e se manifestará na glória que ele tem.
Responderá à oração dos desamparados; as suas súplicas não desprezará.
Escreva-se isto para as futuras gerações, e um povo que ainda será criado louvará o Senhor, proclamando:
"Do seu santuário nas alturas o Senhor olhou; dos céus observou a terra,
para ouvir os gemidos dos prisioneiros e libertar os condenados à morte".
Assim o nome do Senhor será anunciado em Sião e o seu louvor, em Jerusalém,
quando os povos e os reinos se reunirem para adorar ao Senhor.
No meio da minha vida ele me abateu com sua força; abreviou os meus dias.
Então pedi: "Ó meu Deus, não me leves no meio dos meus dias. Os teus dias duram por todas as gerações!
No princípio firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Como roupas tu os trocarás e serão jogados fora.
Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim.
Os filhos dos teus servos terão uma habitação; os seus descendentes serão estabelecidos na tua presença".

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (II) - 23/03/2011

Texto áureo: Salmo 90:12
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios."

Leitura de hoje: Salmos 77, 79, 80, 83 e 85

Clamo a Deus por socorro; clamo a Deus que me escute.
Quando estou angustiado, busco o Senhor; de noite estendo as mãos sem cessar; a minha alma está inconsolável!
Lembro-me de ti, ó Deus, e suspiro; começo a meditar, e o meu espírito desfalece.
Não me permites fechar os olhos; tão inquieto estou que não consigo falar.
Fico a pensar nos dias que se foram, nos anos há muito passados;
de noite recordo minhas canções. O meu coração medita, e o meu espírito pergunta:
"Irá o Senhor rejeitar-nos para sempre? Jamais tornará a mostrar-nos o seu favor?
Desapareceu para sempre o seu amor? Acabou-se a sua promessa?
Esqueceu-se Deus de ser misericordioso? Em sua ira refreou sua compaixão?"
Então pensei: a razão da minha dor é que a mão direita do Altíssimo não age mais.
Recordarei os feitos do Senhor; recordarei os teus antigos milagres.
Meditarei em todas as tuas obras e considerarei todos os teus feitos.
Teus caminhos, ó Deus, são santos. Que deus é tão grande como o nosso Deus?
Tu és o Deus que realiza milagres; mostras o teu poder entre os povos.
Com o teu braço forte resgataste o teu povo, os descendentes de Jacó e de José.
As águas te viram, ó Deus, as águas te viram e se contorceram; até os abismos estremeceram.
As nuvens despejaram chuvas, ressoou nos céus o trovão; as tuas flechas reluziam em todas as direções.
No redemoinho, estrondou o teu trovão, os teus relâmpagos iluminaram o mundo; a terra tremeu e sacudiu-se.
A tua vereda passou pelo mar, o teu caminho pelas águas poderosas, e ninguém viu as tuas pegadas.
Guiaste o teu povo como a um rebanho pela mão de Moisés e de Arão.

Ó Deus, as nações invadiram a tua herança, profanaram o teu santo templo, reduziram Jerusalém a ruínas.
Deram os cadáveres dos teus servos às aves do céu por alimento, a carne dos teus fiéis, aos animais selvagens.
Derramaram o sangue deles como água ao redor de Jerusalém, e não há ninguém para sepultá-los.
Somos motivos de zombaria para os nossos vizinhos, de riso e menosprezo para os que vivem ao nosso redor.
Até quando, Senhor? Ficarás irado para sempre? Arderá o teu ciúme como o fogo?
Derrama a tua ira sobre as nações que não te reconhecem, sobre os reinos que não invocam o teu nome,
pois devoraram Jacó, deixando em ruínas a sua terra.
Não cobres de nós as maldades dos nossos antepassados; venha depressa ao nosso encontro a tua misericórdia, pois estamos totalmente desanimados!
Ajuda-nos, ó Deus, nosso Salvador, para a glória do teu nome; livra-nos e perdoa os nossos pecados, por amor do teu nome.
Por que as nações haverão de dizer: "Onde está o Deus deles?" Diante dos nossos olhos, mostra às nações a tua vingança pelo sangue dos teus servos.
Cheguem à tua presença os gemidos dos prisioneiros. Pela força do teu braço preserva os condenados à morte.
Retribui sete vezes mais aos nossos vizinhos as afrontas com que te insultaram, Senhor!
Então nós, o teu povo, as ovelhas das tuas pastagens, para sempre te louvaremos; de geração em geração cantaremos os teus louvores.

Escuta-nos, Pastor de Israel, tu, que conduzes a José como a um rebanho; tu, que tens o teu trono sobre os querubins, manifesta o teu esplendor
diante de Efraim, Benjamim e Manassés. Desperta o teu poder, e vem salvar-nos!
Restaura-nos, ó Deus! Faze resplandecer sobre nós o teu rosto, para que sejamos salvos.
Ó Senhor, Deus dos Exércitos, até quando arderá a tua ira contra as orações do teu povo?
Tu o alimentaste com pão de lágrimas e o fizeste beber copos de lágrimas.
Fizeste de nós um motivo de disputas entre as nações vizinhas, e os nossos inimigos caçoam de nós.
Restaura-nos, ó Deus dos Exércitos; faze resplandecer sobre nós o teu rosto, para que sejamos salvos.
Do Egito trouxeste uma videira; expulsaste as nações e a plantaste.
Limpaste o terreno, ela lançou raízes e encheu a terra.
Os montes foram cobertos pela sua sombra, e os mais altos cedros, pelos seus ramos.
Seus ramos se estenderam até o Mar, e os seus brotos, até o Rio.
Por que derrubaste as suas cercas, permitindo que todos os que passam apanhem as suas uvas?
Javalis da floresta a devastam e as criaturas do campo dela se alimentam.
Volta-te para nós, ó Deus dos Exércitos! Dos altos céus olha e vê! Toma conta desta videira,
da raiz que a tua mão direita plantou, do filho que para ti fizeste crescer!
Tua videira foi derrubada; como lixo, foi consumida pelo fogo. Pela tua repreensão perece o teu povo!
Repouse a tua mão sobre aquele que puseste à tua mão direita, o filho do homem que para ti fizeste crescer.
Então não nos desviaremos de ti; vivifica-nos, e invocaremos o teu nome.
Restaura-nos, ó Senhor, Deus dos Exércitos; faze resplandecer sobre nós o teu rosto, para que sejamos salvos.

Ó Deus, não te emudeças; não fiques em silêncio nem te detenhas, ó Deus.
Vê como se agitam os teus inimigos, como os teus adversários te desafiam de cabeça erguida.
Com astúcia conspiram contra o teu povo; tramam contra aqueles que são o teu tesouro.
Eles dizem: "Venham, vamos destruí-los como nação, para que o nome de Israel não seja mais lembrado!"
Com um só propósito tramam juntos; é contra ti que fazem acordo
as tendas de Edom e os ismaelitas, Moabe e os hagarenos,
Gebal, Amom e Amaleque, a Filístia, com os habitantes de Tiro.
Até a Assíria a eles se aliou, e trouxe força aos descendentes de Ló.
Trata-os como trataste Midiã, como trataste Sísera e Jabim no rio Quisom,
os quais morreram em En-Dor e se tornaram esterco para a terra.
Faze com os seus nobres o que fizeste com Orebe e Zeebe, e com todos os seus príncipes o que fizeste com Zeba e Zalmuna,
que disseram: "Vamos apossar-nos das pastagens de Deus".
Faze-os como folhas secas levadas no redemoinho, ó meu Deus, como palha ao vento.
Assim como o fogo consome a floresta e as chamas incendeiam os montes,
persegue-os com o teu vendaval e aterroriza-os com a tua tempestade.
Cobre-lhes de vergonha o rosto até que busquem o teu nome, Senhor.
Sejam eles humilhados e aterrorizados para sempre; pereçam em completa desgraça.
Saibam eles que tu, cujo nome é Senhor, somente tu, és o Altíssimo sobre toda a terra.

Foste favorável à tua terra, ó Senhor; trouxeste restauração a Jacó.
Perdoaste a culpa do teu povo e cobriste todos os seus pecados.
Retiraste todo o teu furor e te afastaste da tua ira tremenda.
Restaura-nos mais uma vez, ó Deus, nosso Salvador, e desfaze o teu furor para conosco.
Ficarás indignado conosco para sempre? Prolongarás a tua ira por todas as gerações?
Acaso não nos renovarás a vida, a fim de que o teu povo se alegre em ti?
Mostra-nos o teu amor, ó Senhor, e concede-nos a tua salvação!
Eu ouvirei o que Deus, o Senhor, disse: Ele promete paz ao seu povo, aos seus fiéis! Não voltem eles à insensatez!
Perto está a salvação que ele trará aos que o temem, e a sua glória habitará em nossa terra.
O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão.
A fidelidade brotará da terra, e a justiça descerá dos céus.
O Senhor nos trará bênçãos, e a nossa terra dará a sua colheita.
A justiça irá adiante dele e preparará o caminho para os seus passos.

terça-feira, 22 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (II) - 22/03/2011

Texto áureo: Salmo 90:12
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios."

Leitura de hoje: Salmos 69-71; 73-74

Salva-me, ó Deus!, pois as águas subiram até o meu pescoço.
Nas profundezas lamacentas eu me afundo, não tenho onde firmar os pés. Entrei em águas profundas; as correntezas me arrastam.
Cansei-me de pedir socorro; minha garganta se abrasa. Meus olhos fraquejam de tanto esperar pelo meu Deus.
Os que sem razão me odeiam são mais do que os fios de cabelo da minha cabeça; muitos são os que me prejudicam sem motivo, muitos, os que procuram destruir-me. Sou forçado a devolver o que não roubei.
Tu bem sabes como fui insensato, ó Deus; a minha culpa não te é encoberta.
Não se decepcionem por minha causa aqueles que esperam em ti, ó Senhor, Senhor dos Exércitos! Não se frustrem por minha causa os que te buscam, ó Deus de Israel!
Pois por amor a ti suporto zombaria, e a vergonha cobre-me o rosto.
Sou um estrangeiro para os meus irmãos, um estranho até para os filhos da minha mãe;
pois o zelo pela tua casa me consome, e os insultos daqueles que te insultam caem sobre mim.
Até quando choro e jejuo, tenho que suportar zombaria;
quando ponho vestes de lamento, sou motivo de piada.
Os que se ajuntam na praça falam de mim, e sou a canção dos bêbados.
Mas eu, Senhor, no tempo oportuno, elevo a ti minha oração; responde-me, por teu grande amor, ó Deus, com a tua salvação infalível!
Tira-me do atoleiro, não me deixes afundar; liberta-me dos que me odeiam e das águas profundas.
Não permitas que as correntezas me arrastem, nem que as profundezas me engulam, nem que a cova feche sobre mim a sua boca!
Responde-me, Senhor, pela bondade do teu amor; por tua grande misericórdia, volta-te para mim.
Não escondas do teu servo a tua face; responde-me depressa, pois estou em perigo.
Aproxima-te e resgata-me; livra-me por causa dos meus inimigos.
Tu bem sabes como sofro zombaria, humilhação e vergonha; conheces todos os meus adversários.
A zombaria partiu-me o coração; estou em desespero! Supliquei por socorro, nada recebi, por consoladores, e a ninguém encontrei.
Puseram fel na minha comida e para matar-me a sede deram-me vinagre.
Que a mesa deles se lhes transforme em laço; torne-se retribuição e armadilha.
Escureçam-se os seus olhos para que não consigam ver; faze-lhes tremer o corpo sem parar.
Despeja sobre eles a tua ira; que o teu furor ardente os alcance.
Fique deserto o lugar deles; não haja ninguém que habite nas suas tendas.
Pois perseguem aqueles que tu feres e comentam a dor daqueles a quem castigas.
Acrescenta-lhes pecado sobre pecado; não os deixes alcançar a tua justiça.
Sejam eles tirados do livro da vida e não sejam incluídos no rol dos justos.
Grande é a minha aflição e a minha dor! Proteja-me, ó Deus, a tua salvação!
Louvarei o nome de Deus com cânticos e proclamarei sua grandeza com ações de graças;
isso agradará o Senhor mais do que bois, mais do que touros com seus chifres e cascos.
Os necessitados o verão e se alegrarão; a vocês que buscam a Deus, vida ao seu coração!
O Senhor ouve o pobre e não despreza o seu povo aprisionado.
Louvem-no os céus e a terra, os mares e tudo o que neles se move,
pois Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá. Então o povo ali viverá e tomará posse da terra;
a descendência dos seus servos a herdará, e nela habitarão os que amam o seu nome.

Livra-me, ó Deus! Apressa-te, Senhor, a ajudar-me!
Sejam humilhados e frustrados os que procuram tirar-me a vida; retrocedam desprezados os que desejam a minha ruína.
Retrocedam em desgraça os que zombam de mim.
Mas regozijem-se e alegrem-se em ti todos os que te buscam; digam sempre os que amam a tua salvação: "Como Deus é grande!"
Quanto a mim, sou pobre e necessitado; apressa-te, ó Deus. Tu és o meu socorro e o meu libertador; Senhor, não te demores!

Em ti, Senhor, busquei refúgio; nunca permitas que eu seja humilhado.
Resgata-me e livra-me por tua justiça; inclina o teu ouvido para mim e salva-me.
Peço-te que sejas a minha rocha de refúgio, para onde eu sempre possa ir; dá ordem para que me libertem, pois és a minha rocha e a minha fortaleza.
Livra-me, ó meu Deus, das mãos dos ímpios, das garras dos perversos e cruéis.
Pois tu és a minha esperança, ó Soberano Senhor, em ti está a minha confiança desde a juventude.
Desde o ventre materno dependo de ti; tu me sustentaste desde as entranhas de minha mãe. Eu sempre te louvarei!
Tornei-me um exemplo para muitos, porque tu és o meu refúgio seguro.
Do teu louvor transborda a minha boca, que o tempo todo proclama o teu esplendor.
Não me rejeites na minha velhice; não me abandones quando se vão as minhas forças.
Pois os meus inimigos me caluniam; os que estão à espreita juntam-se e planejam matar-me.
"Deus o abandonou", dizem eles; "persigam-no e prendam-no, pois ninguém o livrará".
Não fiques longe de mim, ó Deus; ó meu Deus, apressa-te em ajudar-me.
Pereçam humilhados os meus acusadores; sejam cobertos de zombaria e vergonha os que querem prejudicar-me.
Mas eu sempre terei esperança e te louvarei cada vez mais.
A minha boca falará sem cessar da tua justiça e dos teus incontáveis atos de salvação.
Falarei dos teus feitos poderosos, ó Soberano Senhor; proclamarei a tua justiça, unicamente a tua justiça.
Desde a minha juventude, ó Deus, tens me ensinado, e até hoje eu anuncio as tuas maravilhas.
Agora que estou velho, de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, para que eu possa falar da tua força aos nossos filhos, e do teu poder às futuras gerações.
Tua justiça chega até as alturas, ó Deus, tu, que tens feito coisas grandiosas. Quem se compara a ti, ó Deus?
Tu, que me fizeste passar muitas e duras tribulações, restaurarás a minha vida, e das profundezas da terra de novo me farás subir.
Tu me farás mais honrado e mais uma vez me consolarás.
E eu te louvarei com a lira por tua fidelidade, ó meu Deus; cantarei louvores a ti com a harpa, ó Santo de Israel.
Os meus lábios gritarão de alegria quando eu cantar louvores a ti, pois tu me redimiste.
Também a minha língua sempre falará dos teus atos de justiça, pois os que queriam prejudicar-me foram humilhados e ficaram frustrados.

Certamente Deus é bom para Israel, para os puros de coração.
Quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei.
Pois tive inveja dos arrogantes quando vi a prosperidade desses ímpios.
Eles não passam por sofrimento e têm o corpo saudável e forte.
Estão livres dos fardos de todos; não são atingidos por doenças como os outros homens.
Por isso o orgulho lhes serve de colar, e se vestem de violência.
Do seu íntimo brota a maldade; da sua mente transbordam maquinações.
Eles zombam e falam com más intenções; em sua arrogância ameaçam com opressão.
Com a boca arrogam a si os céus, e com a língua se apossam da terra.
Por isso o seu povo se volta para eles e bebem suas palavras até saciar-se.
Eles dizem: "Como saberá Deus? Terá conhecimento o Altíssimo?"
Assim são os ímpios; sempre despreocupados, aumentam suas riquezas.
Certamente foi-me inútil manter puro o coração e lavar as mãos na inocência,
pois o dia inteiro sou afligido, e todas as manhãs sou castigado.
Se eu tivesse dito "falarei com eles", teria traído os teus filhos.
Quando tentei entender tudo isso, achei muito difícil para mim,
até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios.
Certamente os pões em terreno escorregadio e os fazes cair na ruína.
Como são destruídos de repente, completamente tomados de pavor!
São como um sonho que se vai quando a gente acorda; quando te levantares, Senhor, tu os farás desaparecer.
Quando o meu coração estava amargurado e no íntimo eu sentia inveja,
agi como insensato e ignorante; minha atitude para contigo era a de um animal irracional.
Contudo, sempre estou contigo; tomas a minha mão direita e me susténs.
Tu me diriges com o teu conselho, e depois me receberás com honras.
A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti.
O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre.
Os que te abandonam sem dúvida perecerão; tu destróis todos os infiéis.
Mas, para mim, bom é estar perto de Deus; fiz do Soberano Senhor o meu refúgio; proclamarei todos os teus feitos.

Por que nos rejeitaste definitivamente, ó Deus? Por que se acende a tua ira contra as ovelhas da tua pastagem?
Lembra-te do povo que adquiriste em tempos passados, da tribo da tua herança, que resgataste, do monte Sião, onde habitaste.
Volta os teus passos para aquelas ruínas irreparáveis, para toda a destruição que o inimigo causou em teu santuário.
Teus adversários gritaram triunfantes bem no local onde te encontravas conosco, e hastearam suas bandeiras em sinal de vitória.
Pareciam homens armados com machados invadindo um bosque cerrado.
Com seus machados e machadinhas esmigalharam todos os revestimentos de madeira esculpida.
Atearam fogo ao teu santuário; profanaram o lugar da habitação do teu nome.
Disseram no coração: "Vamos acabar com eles!" Queimaram todos os santuários do país.
Já não vemos sinais miraculosos; não há mais profetas, e nenhum de nós sabe até quando isso continuará.
Até quando o adversário irá zombar, ó Deus? Será que o inimigo blasfemará o teu nome para sempre?
Por que reténs a tua mão, a tua mão direita? Não fiques de braços cruzados! Destrói-os!
Mas tu, ó Deus, és o meu rei desde a antigüidade; trazes salvação sobre a terra.
Tu dividiste o mar pelo teu poder; quebraste as cabeças das serpentes das águas.
Esmagaste as cabeças do Leviatã e o deste por comida às criaturas do deserto.
Tu abriste fontes e regatos; secaste rios perenes.
O dia é teu, e tua também é a noite; estabeleceste o sol e a lua.
Determinaste todas as fronteiras da terra; fizeste o verão e o inverno.
Lembra-te de como o inimigo tem zombado de ti, ó Senhor, como os insensatos têm blasfemado o teu nome.
Não entregues a vida da tua pomba aos animais selvagens; não te esqueças para sempre da vida do teu povo indefeso.
Dá atenção à tua aliança, porque de antros de violência se enchem os lugares sombrios do país.
Não deixes que o oprimido se retire humilhado! Faze que o pobre e o necessitado louvem o teu nome.
Levanta-te, ó Deus, e defende a tua causa; lembra-te de como os insensatos zombam de ti sem cessar.
Não ignores a gritaria dos teus adversários, o crescente tumulto dos teus inimigos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (II) - 21/03/2011

Texto áureo: Salmo 90:12
"Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios."

Leitura de hoje: Salmos 59-61; 63-64

Livra-me dos meus inimigos, ó Deus; põe-me fora do alcance dos meus agressores.
Livra-me dos que praticam o mal e salva-me dos assassinos.
Vê como ficam à minha espreita! Homens cruéis conspiram contra mim, sem que eu tenha cometido qualquer delito ou pecado, ó Senhor.
Mesmo que de nada eu tenha culpa, eles se preparam às pressas para atacar-me. Levanta-te para ajudar-me; olha para a situação em que me encontro!
Ó Senhor, Deus dos Exércitos, ó Deus de Israel! Desperta para castigar todas as nações; não tenhas misericórdia dos traidores perversos.
Eles voltam ao cair da tarde, rosnando como cães e rondando a cidade.
Vê que ameaças saem de suas bocas; seus lábios são como espadas, e dizem: "Quem nos ouvirá?"
Mas tu, Senhor, vais rir deles; caçoarás de todas aquelas nações.
Ó tu, minha força, por ti vou aguardar; tu, ó Deus, és o meu alto refúgio.
O meu Deus fiel virá ao meu encontro e permitirá que eu triunfe sobre os meus inimigos.
Mas não os mates, ó Senhor, nosso escudo, se não, o meu povo o esquecerá. Em teu poder faze-os vaguearem, e abate-os.
Pelos pecados de suas bocas, pelas palavras de seus lábios, sejam apanhados em seu orgulho. Pelas maldições e mentiras que pronunciam,
consome-os em tua ira, consome-os até que não mais existam. Então se saberá até os confins da terra que Deus governa Jacó.
Eles voltam ao cair da tarde, rosnando como cães, e rondando a cidade.
À procura de comida perambulam e, se não ficam satisfeitos, uivam.
Mas eu cantarei louvores à tua força, de manhã louvarei a tua fidelidade; pois tu és o meu alto refúgio, abrigo seguro nos tempos difíceis.
Ó minha força, canto louvores a ti; tu és, ó Deus, o meu alto refúgio, o Deus que me ama.

Tu nos rejeitaste e nos dispersaste, ó Deus; tu derramaste a tua ira; restaura-nos agora!
Sacudiste a terra e abriste-lhe fendas; repara suas brechas, pois ameaça desmoronar-se.
Fizeste passar o teu povo por tempos difíceis; deste-nos um vinho estonteante.
Mas aos que te temem deste um sinal para que fugissem das flechas.
Salva-nos com a tua mão direita e responde-nos, para que sejam libertos aqueles a quem amas.
Do seu santuário Deus falou: "No meu triunfo dividirei Siquém e repartirei o vale de Sucote.
Gileade é minha, Manassés também; Efraim é o meu capacete, Judá é o meu cetro.
Moabe é a pia em que me lavo, em Edom atiro a minha sandália; sobre a Filístia dou meu brado de vitória!"
Quem me levará à cidade fortificada? Quem me guiará a Edom?
Não foste tu, ó Deus, que nos rejeitaste e deixaste de sair com os nossos exércitos?
Dá-nos ajuda contra os adversários, pois inútil é o socorro do homem.
Com Deus conquistaremos a vitória, e ele pisoteará os nossos adversários.

Ouve o meu clamor, ó Deus; atenta para a minha oração.
Desde os confins da terra eu clamo a ti, com o coração abatido; põe-me à salvo na rocha mais alta do que eu.
Pois tu tens sido o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo.
Para sempre anseio habitar na tua tenda e refugiar-me no abrigo das tuas asas.
Pois ouviste os meus votos, ó Deus; deste-me a herança que concedes aos que temem o teu nome.
Prolonga os dias do rei, por muitas gerações os seus anos de vida.
Para sempre esteja ele em seu trono, diante de Deus; envia o teu amor e a tua fidelidade para protegê-lo.
Então sempre cantarei louvores ao teu nome, cumprindo os meus votos cada dia.

Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água.
Quero contemplar-te no santuário e avistar o teu poder e a tua glória.
O teu amor é melhor do que a vida! Por isso os meus lábios te exaltarão.
Eu te bendirei enquanto viver, e em teu nome levantarei as minhas mãos.
A minha alma ficará satisfeita como de rico banquete; com lábios jubilosos a minha boca te louvará.
Quando me deito lembro-me de ti; penso em ti durante as vigílias da noite.
Porque és a minha ajuda, canto de alegria à sombra das tuas asas.
A minha alma apega-se a ti; a tua mão direita me sustém.
Aqueles, porém, que querem matar-me serão destruídos; descerão às profundezas da terra.
Serão entregues à espada e devorados por chacais.
Mas o rei se alegrará em Deus; todos os que juram pelo nome de Deus o louvarão, mas as bocas dos mentirosos serão tapadas.

Ouve-me, ó Deus, quando faço a minha queixa; protege a minha vida do inimigo ameaçador.
Defende-me da conspiração dos ímpios e da ruidosa multidão de malfeitores.
Eles afiam a língua como espada e apontam como flechas, palavras envenenadas.
De onde estão emboscados atiram no homem íntegro; atiram de surpresa, sem qualquer temor.
Animam-se uns aos outros com planos malignos, combinam como ocultar as suas armadilhas, e dizem: "Quem as verá?"
Tramam a injustiça e dizem: "Fizemos um plano perfeito!" A mente e o coração de cada um deles o encobrem!
Mas Deus atirará neles suas flechas; repentinamente serão atingidos.
Pelas próprias palavras farão cair uns aos outros; menearão a cabeça e zombarão deles todos os que os virem.
Todos os homens temerão, proclamarão as obras de Deus, refletindo no que ele fez.
Alegrem-se os justos no Senhor e nele busquem refúgio; congratulem-se todos os retos de coração!

domingo, 20 de março de 2011

Os salmos de lamentação - Imprecatórios (I) - 20/03/2011

Texto áureo: Salmo 51:12
"Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário."

Leitura de hoje: Salmos 56-58

Tem misericórdia de mim, ó Deus, pois os homens me pressionam; o tempo todo me atacam e me oprimem.
Os meus inimigos pressionam-me sem parar; muitos atacam-me arrogantemente.
Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti.
Em Deus, cuja palavra eu louvo, em Deus eu confio, e não temerei. Que poderá fazer-me o simples mortal?
O tempo todo eles distorcem as minhas palavras; estão sempre tramando prejudicar-me.
Conspiram, ficam à espreita, vigiam os meus passos, na esperança de tirar-me a vida.
Deixarás escapar essa gente tão perversa? Na tua ira, ó Deus, derruba as nações.
Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre; acaso não estão anotadas em teu livro?
Os meus inimigos retrocederão, quando eu clamar por socorro. Com isso saberei que Deus está a meu favor.
Confio em Deus, cuja palavra louvo, no Senhor, cuja palavra louvo,
nesse Deus eu confio, e não temerei. Que poderá fazer-me o homem?
Cumprirei os votos que te fiz, ó Deus; a ti apresentarei minhas ofertas de gratidão.
Pois me livraste da morte e os meus pés de tropeçarem, para que eu ande diante de Deus na luz que ilumina os vivos.

Misericórdia, ó Deus; misericórdia, pois em ti a minha alma se refugia. Eu me refugiarei à sombra das tuas asas, até que passe o perigo.
Clamo ao Deus Altíssimo, a Deus, que para comigo cumpre o seu propósito.
Dos céus ele me envia a salvação, põe em fuga os que me perseguem de perto; 
Deus envia o seu amor e a sua fidelidade.
Estou em meio a leões, ávidos para devorar; seus dentes são lanças e flechas, suas línguas são espadas afiadas.
Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus! Sobre toda a terra esteja a tua glória!
Preparam armadilhas para os meus pés; fiquei muito abatido. Abriram uma cova no meu caminho, mas foram eles que nela caíram.
Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme; cantarei ao som de instrumentos!
Acorde, minha alma! Acordem, harpa e lira! Vou despertar a alvorada!
Eu te louvarei, ó Senhor, entre as nações; cantarei teus louvores entre os povos.
Pois o teu amor é tão grande que alcança os céus; a tua fidelidade vai até às nuvens.
Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus! Sobre toda a terra esteja a tua glória!

Será que vocês, poderosos, falam de fato com justiça? Será que vocês, homens, julgam retamente?
Não! No coração vocês tramam a injustiça, e na terra as suas mãos espalham a violência.
Os ímpios erram o caminho desde o ventre; desviam-se os mentirosos desde que nascem.
Seu veneno é como veneno de serpente; tapam os ouvidos, como a cobra que se faz de surda para não ouvir a música dos encantadores, que fazem encantamentos com tanta habilidade.
Quebra os dentes deles, ó Deus; arranca, Senhor, as presas desses leões!
Desapareçam como a água que escorre! Quando empunharem o arco, caiam sem força as suas flechas!
Sejam como a lesma que se derrete pelo caminho; como feto abortado, não vejam eles o sol!
Os ímpios serão varridos antes que as suas panelas sintam o calor da lenha, esteja ela verde ou seca.
Os justos se alegrarão quando forem vingados, quando banharem seus pés no sangue dos ímpios.
Então os homens comentarão: "De fato os justos têm a sua recompensa; com certeza há um Deus que faz justiça na terra".

O que são imprecatórios?

Tenho certeza de que durante toda esta semana você leu os Salmos e, como um bom estudante, buscou saber o que são imprecatórios. Encontrei no link http://peregrinosdesantiago.blogspot.com/2008/01/salmos-imprecatrios-uma-aula.html uma parte do texto do Prof Pe Armindo dos Santos Vaz que transcrevo aqui por entender que é uma boa explicação para o conhecimento e uso destes Salmos.

Frequentemente o género literário de imprecação faz com que apareçam as formas mais gráficas, refinadas e duras, as menos calculadas e, portanto, chocantes para a mentalidade e sensibilidade cristã. Muitas vezes não são senão fruto da imaginação desenfreada, com vocabulário colorido e sonoro, feito de hipérboles sem limites, com formas estereotipadas da linguagem oriental, clichés literários convencionais, tendentes a impressionar ou a exprimir com veemência e autenticidade um pedaço de vida diante de Deus. Assim, as imprecações não são senão o veículo literário da vibração fogosa da alma semita, fortemente imaginativa e realista. Muitas vezes são imprecações literárias e poéticas (cf. Sl 109,17ss). Entender esta linguagem imagética como linguagem conceptual falseia o seu sentido real.

As imprecações contra os ímpios eram fundamentalmente éticas, enquanto ditadas por um profundo sentido de justiça: visavam a punição do ímpio pecador; nasciam do zelo ardente do Salmista pela honra de Deus e pelo bem do povo. Por isso, até eram formuladas sobretudo na oração (nos Salmos imprecatórios). Frequentemente têm como contexto a “lei de talião” (Ex 21,13s), que exprimia, embora de forma rude, o princípio de que toda a culpa deve ser punida. Quando o justo invocava o castigo sobre os seus adversários tinha sentimentos rectos. Nas imprecações o piedoso de algum modo identificava a própria causa com a de Deus, ao menos com a causa da justiça e da rectidão; nas afrontas que sofria dos malvados via a ofensa da própria honra divina. Por isso, quem imprecava exprimia o desejo legítimo de que não houvesse mais inimigos de Deus. A veemência verbal mais incendiada era entendida como sinal de maior amor a Deus.

 Quem imprecava não queria exercer a justiça/vingança por sua própria conta; manifestava o desejo veemente de que a justiça fosse exercida; por isso, pedia-a ao próprio Deus, justo, que, segundo a fé do tempo do salmista, dá a cada um segundo as suas próprias obras durante a vida terrena, pois ainda não tinha a ideia da retribuição escatológica na vida eterna. Para ele, a justiça de Deus só se podia efectivar no âmbito da vida temporal. Assim, sob este aspecto, as imprecações eram a expressão de almas dolorosamente provadas e limitadas aos horizontes deste mundo. A transferência dos desejos de vingança para Deus permitia ao orante uma espécie de catarse, descarregando-se deles e impedindo a explosão da violência física.

No AT o mal e o bem eram captados ‘concretamente’ em quem os realizava. Não se distinguia adequadamente entre pecado e pecador, vistos como uma única coisa. Dado que, segundo pensavam, Deus odiava o “pecador”, era normal que o justo odiasse aquilo que Deus odiava (cf. Sl 139,21; 15,4) e amasse o que Deus amava.

O ódio contra os malvados compreende-se atendendo a que eles não eram simples inimigos pessoais, mas gente que punha em perigo a fidelidade à Lei do Senhor, tentadores, incarnação das potências do mal, gente que com as suas maquinações tentava afastar o justo da prática religiosa.

Estas observações não devem banalizar os textos bíblicos que apelam à vingança divina. Tentando compreender esse discurso, tem de ser dito que ele hoje não é legítimo em nenhuma situação. A própria Bíblia mostra que não se pode encerrar Deus numa concepção simétrica em que ele se opõe aos seus opositores, como um Deus justiceiro.

Uma vez compreendido por que estão na Bíblia do AT, problema mais agudo é o de decidir se conviria rezar os Salmos imprecatórios hoje, na oração oficial da Igreja do NT. A Introdução à Liturgia das Horas de 1971 excluiu da liturgia eclesial três salmos inteiros (58, 83 e 109) e todos os versículos de carácter imprecatório. A solução não seria banir essas orações da oração da Igreja, mas em compreendê-los e em perceber por que estão na Bíblia. Eles podem ser a linguagem ou expressão dos lamentos e da revolta interior do cristão, que ainda hoje e mais do que no tempo dos salmistas hebreus depara constantemente com o mal moral. Esses salmos podem servir para as vítimas da violência elevarem o seu grito de pedido de justiça a Deus, num protesto orante e não violento face à violência e ao medo. Nos salmos, entregar a ‘desforra’ a Deus implica renúncia à vingança por parte do ofendido (ver Sl 94). Jesus também os rezou, assumindo nessa sua oração a inconformidade de todo o cristão relativamente ao mal moral.